
Com 12 faixas, o projeto, que reúne feats com Urias, Vandal, Sued Nunes e outros, parte de experiências pessoais e de uma pesquisa sobre os adinkras para abordar memória, fé, luto e transformação
O artistaVírus Carinhoso apresenta o álbum “Karkará”, trabalho autoral com 12 faixas lançado pela Natura Musical que reúne experiências pessoais e reflexões sobre ancestralidade, território, paternidade, luto, fé e transformação. O disco parte das vivências do artista, cria do subúrbio ferroviário de Salvador, e articula referências da música afro-diaspórica, como afrobeats, pagodão baiano, ijexá, samba-reggae e rap, a uma pesquisa sobre símbolos e conceitos que atravessam a construção musical e visual do projeto. Ouça aqui!
Com participações de Sued Nunes, Vandal, Chibatinha, Urias, Celo Dut, Aguidavi do Jêje e Novíssimo Edgar, Karkará traz referências que se conectam às vivências, memórias e questões que atravessam a trajetória de Vírus, aproximando temas como criação, existência, espiritualidade, território e transformação.
O projeto tem patrocínio de Natura Musical e do Estado da Bahia, através do Fazcultura, Secretaria de Cultura e Secretaria da Fazenda, e foi selecionado ao lado de DecoloniSate, Festival da Diversidade: Paulilo Paredão, Festival Frequências Preciosas, Gabi Guedes, Melly e Sued Nunes. No Estado, a plataforma da Natura já ofereceu recursos para 80 projetos de música até 2025, em diferentes formatos e estágios de carreira, como Margareth Menezes, Luedji Luna, Mateus Aleluia, Mahal Pita e Casa do Hip Hop da Bahia.
Um dos pontos de partida do projeto, que tem produção musical de Vírus Carinhoso, Zamba, Salamanka, Dactes, Silas Barreto, Tiago Simões, Gui Nakata e João Meirelles, é a pesquisa sobre os adinkras, símbolos de origem Akan associados a diferentes conceitos e valores. A investigação foi aprofundada durante a criação do álbum e orientou tanto a construção conceitual das músicas quanto parte de sua identidade visual.
“Karkará, para mim, é a conclusão de um ciclo e o começo de outro. Para mim, é um resultado desses cinco anos que eu vivi desde a pandemia para cá, um pedaço de mim que eu estou expondo no mundo. Além de ser uma grande porta para novas possibilidades de existência”, diz Vírus.
A narrativa do álbum começa com “Karkará”, última composição feita para o disco, que funciona como uma espécie de despedida ao apresentar a ideia de deixar para trás o karma, as opressões, as mazelas e os pensamentos limitantes. Escrita por Vírus e João Nascimento, a faixa abre caminho para um percurso de transformação que atravessa todo o trabalho. Em seguida, “Cada Criação”, com produção de Emerson Araújo, parte do adinkra Abode Santann, relacionado à criação e à totalidade do universo, para refletir sobre a singularidade de cada existência e sobre a possibilidade de criar e permanecer mesmo diante do caos.
A experiência de existir também aparece em “Quando o Negro Voa”, composta por Vírus e João Nascimento, que aborda a mortalidade de jovens negros e a diferença entre sobreviver e efetivamente viver. A imagem do voo surge como desejo de liberdade e futuro, questionando as condições necessárias para que jovens negros possam projetar suas próprias vidas. A relação com território, memória e passagem do tempo ganha espaço em “Pixo-Corpo-Grafia”, faixa que parte das vivências de Vírus na rua e da pichação como forma de registro e memória das experiências no espaço urbano. O adinkra Mmere Dane, associado à passagem do tempo e à transformação, acompanha essa reflexão sobre aquilo que ficou para trás.

Em um feat com Urias, “Aya” é uma música que tem o adinkra homônimo como referência, que representa inteligência, curiosidade, irreverência e coisas que não têm formas nem moldes. A canção fala sobre algo que não se encaixa aos padrões definidos pela sociedade.
Já “Tenha Fé”, feat com Chibatinha e Celo Dut, se relaciona ao Adinkra Gye Nyame, símbolo ligado à fé na supremacia e presença de Deus, criando no percurso do álbum um momento dedicado à dimensão espiritual e à relação entre fé e existência.
Em “Sunsum”, com participação de Sued Nunes, o artista parte do próprio adinkra Sunsum, associado àquilo que se herda do pai, para ressignificar sua experiência de paternidade enquanto filho. A faixa também se relaciona à sua devoção a Xangô, que Vírus identifica como seu pai de cabeça.

A paternidade assume outra perspectiva em “Carta aos Ancestrais”, primeiro single apresentado do projeto. Se em “Sunsum” a reflexão parte do lugar de filho, aqui Vírus fala como pai, dedicando versos ao filho, Joia, aos ancestrais que já partiram e aos que ainda nascerão. O adinkra Fihankra, associado à ideia de uma casa circular, representa para o artista a ancestralidade como uma árvore genealógica que atravessa gerações. A faixa conta com a participação do Aguidavi do Jêje e reforça a conexão do projeto com as tradições afro-brasileiras e com a ideia de continuidade entre diferentes gerações.
O movimento de ruptura continua em “Sem Medo”, representada pelo adinkra Akoben, relacionado ao chamado à ação, prontidão e voluntarismo. A faixa reforça a disposição para seguir adiante e enfrentar aquilo que se apresenta pelo caminho. Em “Fingem”, associada ao adinkra Wawa Aba, símbolo relacionado à resistência e à durabilidade de uma semente, essa ideia de permanência ganha uma dimensão ambiental. Com produção de Vírus e Pedro Salamanka, a música utiliza a imagem da semente para refletir sobre a relação com o meio ambiente e sobre a necessidade de resistência diante das transformações.
A estratégia aparece como metáfora em “Dame-Dame”, cujo nome vem do próprio adinkra ligado ao jogo de damas, à inteligência e à tomada de decisão. Com participação de Novíssimo Edgar, a faixa foi pensada como uma espécie de partida: Vírus realiza seu primeiro movimento e Edgar responde, construindo a ideia de jogo dentro da própria composição. Encerrando o percurso, “Letrado Baiano” é associado ao adinkra Nkonsonkonson, relacionado à unidade, comunidade e conexão. A faixa, que conta com participação de Vandal, retoma a ideia de vínculo coletivo e também amplia o universo visual e conceitual de Karkará, reforçando a percepção de que as experiências individuais estão sempre ligadas a uma história maior.
“Nestes 20 anos de atuação da plataforma Natura Musical, a música sempre foi o nosso lugar de encontro. Onde a gente se conecta com a nossa história, com as nossas emoções, onde a gente descobre novos jeitos de ver o mundo. Por isso, valorizamos toda a riqueza da música brasileira com projetos que despertem emoções, ecoem narrativas e inspirem atitudes que projetam um futuro plural, inclusivo e sustentável”, complementa Julia Ceschin, head global de Brand Experience da Natura e Avon.
A identidade visual acompanha esse percurso. A capa apresenta uma pintura em tela na qual os símbolos pesquisados durante o processo criativo inspiram uma composição simétrica, reunindo referências da natureza animal e humana. No centro, uma escultura de pássaro aparece com o ventre aberto, de onde surge a cabeça do próprio cantor. Na contracapa, os símbolos são relacionados às respectivas faixas, estabelecendo uma conexão direta entre a pesquisa e a estrutura do álbum. Preto e branco predominam na identidade visual, enquanto o vermelho aparece em detalhes e aplicações, retomando elementos da simbologia pesquisada e aproximando corpo, território, memória e transformação.

Faixa a faixa
Karkará
Escrita por Vírus e João Nascimento, a música apresenta a ideia de despedida que atravessa Karkará: deixar para trás o karma, as opressões, as mazelas e os pensamentos limitantes.
Cada Criação
A música, que tem produção de Vírus e Emerson Araújo, parte do adinkra Abode Santann, relacionado à criação e à totalidade do universo. A composição reflete sobre a singularidade de cada criação e sobre a possibilidade de existir mesmo dentro do caos.
Quando o Negro Voa
A faixa aborda a mortalidade de jovens negros e a diferença entre sobreviver e efetivamente viver. A música parte da imagem do voo como desejo de liberdade e futuro, questionando as condições necessárias para que jovens negros possam projetar suas próprias vidas.
Pixo-Corpo-Grafia
A música, produzida por Vírus e Silas Barreto, aborda território, rua e nostalgia a partir das vivências de Vírus. A pichação aparece como elemento de memória e registro das experiências do artista no espaço urbano. O adinkra Mmere Dane, relacionado à passagem do tempo e à transformação, acompanha essa reflexão sobre aquilo que ficou para trás.
Aya
Em um feat com Urias, é uma música que tem o adinkra Aya como referência, abordando inteligência, curiosidade, irreverência e coisas que não têm formas nem moldes.
Tenha Fé
A faixa, que tem feat com Chibatinha e Celo Dut, é associada ao adinkra Gye Nyame, símbolo ligado à fé na supremacia e presença de Deus. No percurso do álbum, funciona como um momento dedicado à dimensão espiritual e à relação entre fé e existência.
Sunsum
Com participação de Sued Nunes e produção de Silas Barreto, a faixa utiliza o próprio adinkra Sunsum, associado àquilo que se herda do pai. A partir dessa simbologia, Vírus ressignifica a própria ideia de paternidade enquanto filho, relacionando a música também à sua devoção a Xangô, seu pai de cabeça.
Carta aos Ancestrais
Com participação do Aguidavi do Jêje, a faixa amplia a reflexão sobre paternidade. Vírus fala a partir do lugar de pai, dedicando versos ao filho, Joia, aos ancestrais que já partiram e aos que ainda nascerão. O adinkra Fihankra, associado à ideia de casa circular, representa para o artista a ancestralidade como uma árvore genealógica que atravessa gerações.
Sem Medo
Representada pelo adinkra Akoben, relacionado ao chamado à ação, prontidão e voluntarismo, a canção, que tem produção de Vírus e Zamba, integra o movimento de ruptura proposto pelo álbum e reforça a ideia de disposição para seguir adiante.
Fingem
Associada ao adinkra Wawa Aba, símbolo relacionado à resistência e durabilidade de uma semente, “Fingem” traz uma dimensão de emergência ambiental. A produção é de Vírus e Pedro Salamanca, e a música utiliza a imagem da semente para abordar a relação com o meio ambiente.
Dame-Dame
O próprio nome da faixa vem do adinkra Dame-Dame, ligado ao jogo de damas, à estratégia e à inteligência. Com participação de Novíssimo Edgar, a música foi pensada como uma espécie de partida: Vírus faz seu movimento primeiro e Edgar responde, construindo a ideia de jogo e estratégia dentro da própria composição. O projeto tem produção de Silas Barreto, Gui Nakata e Tiago Simões.
Letrado Baiano
Associada ao adinkra Nkonsonkonson, relacionado à unidade, comunidade e conexão, a faixa, com participação de Vandal, encerra o percurso apresentado pelo álbum a partir da ideia de vínculo coletivo. O “Letrado Baiano” também aparece como elemento da identidade visual e conceitual de Karkará.
(Crédito: Meneson Conceição)