
Doença afeta cerca de 190 milhões de mulheres no mundo, segundo a OMS, e está entre as principais causas de dor pélvica crônica feminina. Especialistas alertam para os impactos físicos, emocionais e profissionais da condição.
Durante anos, a administradora de empresas Mariana, 37 anos, acreditou que sentir dores incapacitantes durante o período menstrual era algo normal. As crises eram tão intensas que ela faltava ao trabalho com frequência, cancelava compromissos e dependia de medicação para conseguir manter a rotina. O diagnóstico de endometriose veio apenas oito anos depois do início dos sintomas.
Histórias como a dela são mais comuns do que se imagina.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 190 milhões de mulheres e meninas em idade reprodutiva convivem com a endometriose em todo o mundo. A doença ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, provocando inflamação, dor e uma série de impactos que vão muito além da saúde ginecológica.
Apesar da alta prevalência, o diagnóstico ainda demora anos para acontecer. Um estudo publicado no periódico científico Human Reproduction identificou que o tempo médio entre o surgimento dos sintomas e o diagnóstico pode variar entre sete e dez anos em diversos países.
Esse atraso tem consequências importantes para a qualidade de vida das pacientes.
Uma pesquisa internacional publicada no periódico Fertility and Sterility, envolvendo mais de 1.400 mulheres de dez países, concluiu que a endometriose reduz significativamente a produtividade profissional. O estudo identificou perda média de aproximadamente 11 horas de trabalho por semana devido à combinação entre faltas, redução de desempenho e limitações provocadas pela dor.
Além do impacto econômico, a doença também está associada a índices mais elevados de ansiedade, depressão, fadiga crônica e dificuldades nos relacionamentos afetivos.
Segundo a fisioterapeuta pélvica Regiane Migliorini, especialista em disfunções do assoalho pélvico, muitas pacientes chegam ao consultório depois de anos convivendo com sintomas que foram minimizados ou considerados normais.
“Muitas mulheres escutam desde a adolescência que cólica intensa é algo que faz parte da vida. O problema é que, quando a dor passa a limitar atividades diárias, trabalho, vida social ou relacionamentos, ela precisa ser investigada. Dor incapacitante nunca deve ser normalizada”, afirma.
O papel da fisioterapia pélvica
Embora a fisioterapia pélvica não trate a causa da endometriose, ela tem ganhado espaço como uma importante aliada no controle dos sintomas e na melhora da qualidade de vida.
Estudos publicados pela International Pelvic Pain Society demonstram que pacientes com endometriose frequentemente desenvolvem alterações musculares secundárias à dor crônica, especialmente na musculatura do assoalho pélvico. Isso pode gerar aumento da tensão muscular, dores durante relações sexuais, alterações urinárias e intestinais e piora da dor pélvica.
“A dor persistente faz com que o corpo desenvolva mecanismos de proteção. Muitas pacientes apresentam tensão muscular importante na região pélvica, o que acaba alimentando ainda mais o ciclo da dor. A fisioterapia atua justamente na recuperação da funcionalidade, mobilidade e qualidade de vida”, explica Regiane.
Uma revisão científica publicada no International Urogynecology Journal identificou melhora significativa dos sintomas dolorosos e da função física em mulheres submetidas a programas de reabilitação pélvica associados ao tratamento multidisciplinar.
Uma doença que precisa ser discutida
Especialistas defendem que ampliar o acesso à informação é uma das principais ferramentas para reduzir o atraso no diagnóstico.
Dados da Endometriosis Foundation of America mostram que mais de 60% das mulheres relatam ter seus sintomas minimizados em algum momento da busca por atendimento médico.
Para Regiane, a conscientização é fundamental.
“Quanto mais falamos sobre endometriose, mais mulheres conseguem identificar sinais de alerta e buscar ajuda especializada precocemente. O diagnóstico precoce e uma abordagem multidisciplinar podem mudar completamente a trajetória dessas pacientes.”






