Produtos de quatro países asiáticos já somam US$ 276 milhões nas importações brasileiras de beleza

Negócios7 hours ago24 Views

China, Coreia do Sul, Índia e Tailândia ampliaram conjuntamente em 39,1% suas vendas ao Brasil; movimento indica que a influência da K-beauty começa a abrir espaço para uma categoria mais abrangente de Asian Beauty

A influência asiática no mercado brasileiro de beleza já ultrapassa o avanço das marcas sul-coreanas. China, Coreia do Sul, Índia e Tailândia, quatro países que aparecem entre as 15 maiores origens das importações brasileiras de beleza e cuidados pessoais, venderam conjuntamente pelo menos US$ 276,2 milhões ao Brasil entre janeiro e novembro de 2025.

O valor representa uma expansão aproximada de 39,1% sobre os US$ 198,6 milhões registrados pelas mesmas origens no mesmo período de 2024. Esses quatro mercados responderam por 28,9% dos US$ 957,4 milhões importados pelo setor brasileiro, segundo dados do ComexStat compilados pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, a ABIHPEC.

A China liderou as importações brasileiras, com US$ 198,8 milhões e crescimento de 39,3%. A Coreia do Sul movimentou US$ 32,3 milhões, alta de 49,6%. A Índia alcançou US$ 25,2 milhões, avanço de 9,6%, enquanto a Tailândia chegou a US$ 19,9 milhões, crescimento de 78,6%.

O levantamento considera os fluxos comerciais de produtos de beleza e cuidados pessoais e não significa que todos os itens importados sejam apresentados ao consumidor como Asian Beauty. Os números mostram, no entanto, o aumento da conexão comercial entre o Brasil e diferentes centros asiáticos de produção.

“Durante algum tempo, o mercado brasileiro olhou para a Ásia quase exclusivamente pela lente da K-beauty. A Coreia do Sul continua sendo uma força central, mas a categoria começa a ficar mais ampla. Japão, China e outros países possuem competências, histórias e propostas diferentes que o varejo precisará aprender a organizar”, afirma Cláudia Martins, fundadora e diretora comercial da CM Impacta.

Ásia concentra mais de 30% do mercado mundial

A região da Ásia-Pacífico responde por mais de 30% do valor global movimentado pelo setor de beleza e cuidados pessoais, de acordo com a Euromonitor International.

A região reúne a China, segundo maior mercado consumidor mundial, e o Japão, quarto colocado. Segundo dados de 2024 reunidos pela ABIHPEC, a China movimentou US$ 76,6 bilhões em beleza e cuidados pessoais, enquanto o mercado japonês alcançou US$ 29,5 bilhões.

Na China, as vendas no varejo de cosméticos somaram 465,3 bilhões de yuans em 2025, crescimento nominal de 5,1%, conforme o Escritório Nacional de Estatísticas do país.

A Coreia do Sul se destaca pela capacidade exportadora. As vendas internacionais de cosméticos sul-coreanos chegaram ao recorde de US$ 11,4 bilhões em 2025, aumento de 11,8%. O resultado levou o país à posição de segundo maior exportador mundial do setor, atrás apenas da França.

Estados Unidos, China e Japão foram os três principais destinos dos cosméticos sul-coreanos. Os produtos para cuidados com a pele responderam pela maior parcela das exportações.

O Japão, por sua vez, combina um mercado consumidor de grande escala com uma indústria associada à pesquisa, à qualidade e à eficiência. No comércio eletrônico japonês, o segmento formado por cosméticos e produtos farmacêuticos movimentou 1,015 trilhão de ienes em 2024, crescimento de 4,54%, segundo o Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão.

Brasil é o terceiro maior mercado consumidor

A expansão asiática encontra no Brasil um dos mercados mais disputados do mundo. O setor brasileiro de beleza e cuidados pessoais faturou aproximadamente R$ 200 bilhões em 2025, valor equivalente a cerca de 2% do Produto Interno Bruto.

O país ocupa a terceira posição mundial em consumo, atrás apenas de Estados Unidos e China, e concentra 43,4% do mercado de beleza e cuidados pessoais da América Latina.

Os produtos do setor estão presentes em todos os domicílios brasileiros e a cadeia gera aproximadamente 6,9 milhões de oportunidades de trabalho. Em 2025, o país também registrou 7.359 lançamentos, ocupando a quarta posição mundial em inovação.

A indústria brasileira encerrou o ano com recorde de exportações. Os embarques chegaram a US$ 1,061 bilhão, crescimento de 20,1% e primeiro resultado acima de US$ 1 bilhão desde o início da série histórica.

Esse ambiente combina escala, diversidade de consumidores e uma indústria nacional consolidada. Para as marcas estrangeiras, portanto, o tamanho do mercado representa uma oportunidade, mas não reduz as barreiras de entrada.

“Uma marca não se estabelece no Brasil somente porque fez sucesso no país de origem ou viralizou nas redes sociais. Ela precisa enfrentar regulação, tributação, logística, formação de estoque e concorrência. Também precisa adaptar portfólio, preço e comunicação à realidade brasileira”, afirma Cláudia.

K-beauty abriu o caminho

A popularidade da cultura sul-coreana ajudou a criar a primeira grande porta de entrada para a beleza asiática no Brasil. K-pop, séries, cinema, gastronomia e comportamento despertaram curiosidade sobre produtos, ingredientes e rotinas de cuidado.

A K-beauty também apresentou ao consumidor uma lógica baseada em prevenção, constância e manutenção da saúde da pele. Em vez de procurar um produto somente quando surge um problema, o público passou a se interessar por rotinas diárias de limpeza, hidratação e proteção.

“A contribuição da K-beauty não está apenas em um ingrediente ou em uma embalagem. Ela ajudou a transformar cuidado em hábito. Essa mudança da correção para a prevenção tem impacto sobre beleza, saúde e bem-estar”, diz Cláudia.

Com mais de 25 anos de atuação no Canal Farma, a executiva trabalha na conexão entre indústria e varejo e no desenvolvimento de marcas e categorias. Participou da introdução e do posicionamento de marcas asiáticas no Brasil, incluindo a chegada da sul-coreana SKIN1004 à Sephora, e do desenvolvimento da categoria de beleza asiática na Raia Conceito.

A CM Impacta, fundada por Cláudia, não atua como importadora. A empresa participa da estruturação comercial, do posicionamento, da preparação de operações para grandes contas, da abertura de canais e do acompanhamento do desenvolvimento das marcas no varejo.

Asian Beauty não é um bloco homogêneo

A ampliação do conceito de K-beauty para Asian Beauty cria novas oportunidades, mas também exige mais precisão.

A Coreia do Sul ganhou projeção por sua velocidade de inovação, pela influência digital e pela capacidade de transformar ativos e texturas em conteúdo. O Japão possui uma imagem mais relacionada à pesquisa, à eficiência, à qualidade e à continuidade. A China reúne escala industrial, crescimento do mercado interno e capacidade de acelerar o desenvolvimento de produtos e canais digitais.

Índia e países do Sudeste Asiático também participam da expansão comercial da região, mas carregam características próprias, ingredientes locais e diferentes níveis de reconhecimento no Brasil.

“Tratar a Asian Beauty como se fosse uma única proposta seria um erro. A origem pode despertar interesse, mas o consumidor precisa entender por que cada marca existe, qual necessidade atende e o que a diferencia”, explica Cláudia.

A construção da categoria também precisa considerar clima, tipos e tons de pele, hábitos, poder de compra e expectativas do público brasileiro.

Da viralização à permanência

O avanço das importações aumenta a quantidade de marcas interessadas no Brasil e intensifica a disputa entre farmácias, perfumarias, lojas de departamento, operações especializadas e plataformas de comércio eletrônico.

A entrada em grandes redes amplia a visibilidade, mas aumenta a exigência operacional. Marcas e fornecedores precisam garantir regularização, procedência, estoque, reposição, suporte comercial, treinamento e investimento em comunicação.

A fragmentação da oferta representa outro desafio. Marketplaces, vendedores internacionais e canais paralelos podem apresentar diferenças relevantes de preço, prazo de entrega e garantia de autenticidade.

Para as empresas que pretendem construir uma operação de longo prazo, o controle da distribuição e a proteção da reputação tornam-se questões estratégicas.

“O produto viral pode gerar a primeira compra. A construção de mercado começa quando a marca consegue abastecer, orientar e entregar uma experiência capaz de gerar a segunda, a terceira e as próximas compras”, afirma Cláudia.

Uma nova disputa no varejo

O crescimento da Asian Beauty deve influenciar não apenas o sortimento, mas também a organização das lojas.

O varejo pode reservar espaços específicos para apresentar a origem e a inovação asiáticas, mas precisa relacionar os produtos às necessidades que o consumidor reconhece: limpeza, hidratação, proteção solar, sensibilidade, controle de oleosidade, barreira cutânea e cuidados capilares.

Equipes treinadas, comunicação clara e integração entre lojas físicas e canais digitais ajudam a reduzir a insegurança da primeira compra.

Para Cláudia, a expansão asiática oferece uma lição que ultrapassa o setor cosmético.

“Tendências internacionais não chegam ao Brasil prontas. Elas precisam ser interpretadas, adaptadas e transformadas em categorias relevantes. Antecipar uma tendência pode gerar vantagem, mas a permanência depende de estratégia, execução e conhecimento do consumidor.”

Os fluxos comerciais indicam que o interesse já começou a ganhar escala. O próximo capítulo da Asian Beauty no Brasil será definido pelas empresas capazes de transformar diversidade de origens, inovação e influência cultural em uma jornada de compra compreensível, confiável e recorrente.

(Crédito: Arquivo Pessoal)

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