Nem toda dificuldade escolar está ligada à atenção

Saúde2 hours ago19 Views

Alterações no processamento dos sons ainda são pouco conhecidas e podem impactar aprendizagem, comportamento e desenvolvimento infantil

O aumento das dificuldades de aprendizagem entre crianças em idade escolar tem preocupado famílias, educadores e especialistas em saúde infantil. Em muitos casos, os primeiros sinais aparecem dentro da sala de aula: dificuldade para acompanhar explicações, trocas na fala e na escrita, distração frequente, demora na alfabetização e problemas de compreensão.

Não raro, os sintomas acabam sendo associados imediatamente à falta de atenção ou até a transtornos comportamentais. Mas especialistas alertam que parte dessas crianças pode apresentar alterações no processamento auditivo — condição ainda pouco conhecida fora dos consultórios especializados.

Segundo dados do Indicador Criança Alfabetizada, divulgados pelo Ministério da Educação, apenas 56% das crianças brasileiras foram consideradas alfabetizadas na idade esperada em 2024. Paralelamente, crescem os relatos de dificuldades relacionadas à concentração, compreensão oral e aprendizagem dentro do ambiente escolar.

Para Andréia Paz, fonoaudióloga, empresária e especialista em audiologia e processamento auditivo, existe hoje um olhar muito acelerado para diagnósticos ligados exclusivamente à atenção, enquanto as alterações auditivas centrais continuam subestimadas.

“Muitas crianças escutam perfeitamente do ponto de vista auditivo, mas o cérebro não consegue organizar, interpretar e processar os sons de forma eficiente. Isso impacta diretamente aprendizagem, linguagem, comportamento e até autoestima”, explica.

Na prática, a dificuldade não está no ato de ouvir, mas em compreender adequadamente as informações sonoras recebidas pelo cérebro.

Quando ouvir não significa compreender

O chamado transtorno do processamento auditivo central acontece quando há dificuldade em interpretar estímulos sonoros, especialmente em ambientes com muitos ruídos ou excesso de informações simultâneas.

Entre os sinais mais comuns estão:

● dificuldade para compreender comandos verbais
● distração frequente
● necessidade constante de repetição
● dificuldade em acompanhar conversas
● trocas na escrita e leitura
● lentidão na alfabetização
● cansaço mental excessivo após atividades escolares

Segundo Andréia, muitas dessas crianças acabam sendo vistas apenas como desatentas.
“Existe um desgaste emocional muito grande porque elas se esforçam para acompanhar, mas não conseguem processar as informações na mesma velocidade das outras crianças. Com o tempo, isso afeta desempenho, comportamento e confiança”, afirma.

Diagnóstico tardio ainda é comum

Um dos principais desafios é justamente o desconhecimento sobre o tema.

Como a audição periférica geralmente está preservada, pais e professores tendem a acreditar que a criança “ouve normalmente”. Isso faz com que o problema passe despercebido por anos.

“Muitas famílias chegam ao consultório depois de um longo percurso de dúvidas, suspeitas e tentativas frustradas. Em vários casos, a criança já está emocionalmente sobrecarregada”, explica Andréia.

Ela relata que o atraso no diagnóstico pode trazer impactos importantes para o desenvolvimento escolar e social.

Um dos casos acompanhados por ela foi o de uma criança de 8 anos que apresentava queda no desempenho escolar, dificuldade para copiar conteúdos da lousa e episódios frequentes de frustração durante atividades em grupo.

“A família acreditava inicialmente que fosse falta de atenção. Após avaliação especializada, identificamos uma alteração importante no processamento auditivo. Com intervenção adequada, houve melhora significativa na compreensão, no rendimento escolar e até no comportamento”, conta.

Ambiente moderno aumenta sobrecarga auditiva

Especialistas também observam que o excesso de estímulos da vida moderna pode agravar dificuldades já existentes.

Ambientes escolares mais barulhentos, uso excessivo de telas e múltiplas informações simultâneas acabam exigindo ainda mais processamento cerebral das crianças.

“A criança hoje vive exposta a muitos estímulos ao mesmo tempo. Para quem já possui alguma dificuldade no processamento das informações sonoras, isso pode aumentar ainda mais o esforço cognitivo”, explica Andréia.
Estudos internacionais publicados pela American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) já apontam relação entre alterações no processamento auditivo e dificuldades acadêmicas, especialmente em leitura, compreensão oral e linguagem.

Atenção ao comportamento infantil

Outro ponto importante é que nem toda alteração aparece de forma explícita.

Algumas crianças desenvolvem mecanismos de compensação e conseguem mascarar parcialmente as dificuldades, principalmente nos primeiros anos escolares.

Por isso, Andréia reforça a importância de observar mudanças comportamentais e sinais persistentes de dificuldade de aprendizagem.

“Quando a criança começa a evitar leitura, demonstra cansaço excessivo para atividades simples ou apresenta muita dificuldade em ambientes com ruído, é importante investigar”, afirma.

Diagnóstico correto muda trajetória escolar

Apesar dos desafios, especialistas destacam que o diagnóstico precoce pode transformar o desenvolvimento da criança.

Com avaliação adequada e acompanhamento especializado, é possível desenvolver estratégias terapêuticas que melhoram significativamente a compreensão auditiva e reduzem impactos emocionais e escolares.

“O mais importante é entender que dificuldade de aprendizagem não significa falta de inteligência. Muitas vezes, a criança está fazendo um esforço enorme apenas para conseguir interpretar o que escuta”, conclui Andréa.

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