Planejar antes de quebrar a lógica que deve transformar a cadeia de suprimentos nos próximos anos

Reginaldo Faria Primo
Reginaldo Faria Primo

Adoção de análises avançadas e integração operacional cresce após sucessivas rupturas globais, enquanto empresas buscam modelos de planejamento mais robustos e preventivos

O setor de supply chain entrou em um novo ciclo após quatro anos marcados por rupturas globais. O Global Supply Chain Risk Survey 2024, da McKinsey, mostra que 90% dos líderes de grandes organizações enfrentaram interrupções relevantes na cadeia nos últimos 12 meses. Já o Gartner indica que apenas 23% das empresas possuem hoje uma estratégia formal para uso de IA no planejamento, embora a adoção de tecnologias de análise avançada esteja em expansão. Esse cenário acelera a migração de modelos reativos para estruturas capazes de antecipar riscos com maior precisão.

Sorahya Camargo, profissional com 20 anos de experiência em planejamento de materiais, produção e operações em empresas da Nova Zelândia e América Latina, explica que a mudança nasce do impacto financeiro das ações emergenciais. “Reagir é sempre mais caro. Quando a operação precisa correr atrás do problema, há perda de eficiência, custo adicional e risco maior de ruptura. A antecipação reduz essa pressão e torna a cadeia mais estável”, afirma.

Cadeias mais complexas aumentam a necessidade de previsibilidade

O Global Supply Chain Barometer 2024 aponta que fatores como lead times estendidos, volatilidade de demanda e restrições de capacidade seguem entre os maiores desafios globais. A McKinsey destaca ainda que eventos climáticos, conflitos geopolíticos e falta de mão de obra em setores críticos dificultam previsões baseadas apenas em histórico.

Nesse contexto, Sorahya observa que o planejamento tradicional se tornou insuficiente. “A volatilidade não permite mais depender de parâmetros médios. Modelos que cruzam dados de capacidade, demanda, estoques e riscos externos permitem identificar gargalos com semanas de antecedência”, explica.

Visibilidade amplia resiliência e melhora resposta a riscos

Relatórios recentes da McKinsey mostram que empresas com visibilidade ponta a ponta conseguem reduzir significativamente o tempo de resposta a interrupções e ampliar a precisão dos planos de produção. Essa visibilidade depende de processos padronizados e comunicação constante entre áreas críticas — produção, compras, engenharia, logística e comercial.

Entre as práticas que impulsionam essa transição estão:

  • integração de dados para simulações de cenários;
  • revisão contínua de materiais, capacidade e demanda;
  • rotinas estruturadas de comunicação entre equipes;
  • padronização de indicadores e processos;
  • maior colaboração com fornecedores estratégicos.

Cultura de antecipação muda a rotina das empresas

Com experiência em SAP, MRP, planejamento de produção e melhoria contínua, Sorahya destaca que a transição é mais cultural do que tecnológica. “A previsibilidade depende de disciplina. Sem dados confiáveis, rituais claros e processos consistentes, nenhum sistema entrega resultado”, afirma.

O modelo antecipatório também transforma o papel das equipes: em vez de atuar apagando incêndios, times passam a monitorar riscos, projetar cenários e preparar ajustes antes que a ruptura aconteça. Isso reduz variações diárias e melhora estabilidade operacional.

Caminhos para empresas que buscam uma cadeia antecipatória

  1. Centralizar dados e padronizar indicadores, reduzindo distorções no planejamento.

  2. Implantar revisões regulares de cenários, incluindo variações de demanda, restrições de capacidade e riscos externos.

  3. Intensificar o alinhamento com fornecedores, ampliando previsões e acordos de volume.

  4. Formalizar rotinas de comunicação entre áreas operacionais e comerciais.

  5. Desenvolver competências analíticas nas equipes, aumentando a qualidade das decisões preventivas.

Sorahya reforça que a próxima década consolidará o modelo antecipatório como padrão do setor. “O grande diferencial competitivo será prever, não reagir. Cadeias que conseguem se antecipar entregam mais eficiência, mais estabilidade e mais competitividade”, conclui.

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